África: As consequências de uma nova corrida armamentista entre as potências

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Por João Gomes Gonçalves / Angop

O chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, anunciou o facto num comunicado publicado em Bangkok (Tailândia), onde assistia a reuniões regionais, alegando conformar-se tal decisão com o artigo XV do referido tratado.

A renúncia ocorre oito meses depois de, em Dezembro de 2018, Washington ter acusado Moscovo de violar o referido tratado, e desenvolver o míssil 9M729.

Com este acto, os Estados Unidos da América, a Rússia, bem como a China, estão livres para lançar novos programas armamentistas, que podem ameaçar o mundo com uma guerra de extermínio maciço.

Pouco depois do anúncio americano, o jornalista e analista internacional do jornal francês “La Croix”, François d’Alancon, num artigo que publicou a 02 de Agosto, intitulado “O fim do tratado FNI desencadeia uma corrida armamentista”, revela que o Pentágono anunciou naquele mês que testaria um míssil com  um alcance de mil quilómetros e, em Novembro, um míssil balístico que poderá atingir três mil a quatro mil quilómetros.

Uma vez operacionais, escreve, os engenhos poderão ser montados nas ilhas do Pacífico e nos territórios dos países aliados, para conter a pressão chinesa no mar meridional.

François d’Alancon diz ainda que na postura nuclear que anunciou em 2018, o Pentágono evocou também o fabrico de um outro míssil nuclear mais poderoso.

A Rússia reagiu à decisão americana, poucas horas antes do anúncio do Pentágono, pondo também fim ao referido tratado.

O jornal francês “Médiapart”, na sua edição de quinta-feira, 01 de Agosto, indicou que Vladimir Putin já havia anunciado uma possível retirada da Rússia do tratado em Março de 2019.

Putin anunciou o facto depois de, em 2018, ter revelado o fabrico e ensaio dos mísseis super-modernos “invencíveis”.

A 05 de Fevereiro do mesmo ano, o ministro russo da Defesa, Sergueï Choïgou, disse num comunicado, que Moscovo, imitando a política dos EUA, vai desenvolver um arsenal nuclear e criar “um sistema de mísseis terrestre, de longo alcance”, até 2022.

Para o diário russo “Nezavisimaya Gazeta”, “os Estados Unidos ameaçaram a Rússia e a China com o desdobramento de mísseis de médio alcance nas suas fronteiras”, mas Moscovo não se deixaria arrastar para uma nova corrida armamentista.

Terça-feira, 06, o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros advertiu os Estados Unidos, dizendo que Washington expor-se-á, caso coloque aquele tipo de mísseis na Ásia Pacífica.

Fu Cong, director-geral do Departamento de controlo de armamentos e do desarmamento daquele Ministério, declarou que a China responderia à colocação de mísseis na região, e tomaria as medidas susceptíveis que visariam neutralizar as ameaças norte-americanas.

“Pedimos aos nossos vizinhos que não permitam que os Estados Unidos instalem os seus mísseis de médio alcance nos seus territórios”, disse o diplomata chinês, em alusão ao Japão, à Correia do Sul e à Austrália.

Pawel Kaminov, perito chefe junto do Instituto de Estudos Orientais da Academia da Rússia, declarou que a China focalizou os seus esforços no desenvolvimento das suas capacidades balísticas, graças às reformas militares que iniciou em 2015.

Impacto da nova corrida armamentista em África

Nos primeiros trinta anos das suas independências, isto é, de 1960 a 1990, os países africanos foram dependentes da guerra fria entre as duas superpotências saídas da segunda guerra mundial (1941-1945), com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), liderada pelos Estados Unidos, e do Pacto de Varsóvia, chefiado pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

A queda do muro de Berlim, em Novembro de 1989, e o fim da URSS, em 1990, aparentou terminar com as ameaças militares que pairavam sobre o continente, já que o mundo se tornara unipolar, com apenas uma superpotência militar, os Estados Unidos da América.

Hoje, 60 anos depois, o espectro da guerra volta a ameaçar a África, estando a maioria dos países africanos ainda dependentes das antigas colónias, e mesmo, das potências mundiais que, à procura de recursos naturais, obrigam-nos a comprarem armamentos para criar ditadores, explorar as suas riquezas, uma forma de dividir para melhor reinar.

Mais do que nunca, esta parte do mundo continua mergulhada em lutas intestinas pelo poder, como o são os casos da RDC, a Somália, o  Sudão e Sudão do Sul, a RCA, os  Camarões e Nigéria, o  Mali e o Tchad, o Burkina Faso e o Níger, a  Líbia e o Egipto, além de Marrocos, Argélia e Sahara Ocidental.

De uma ou de outra maneiras, todas as guerras nesses países acima citados tem a “bênção” das grandes potências.

As suas tropas, oficialmente apresentadas como estando em África como formadores ou conselheiros, são, na realidade, elementos para proteger as ainda “suas zonas de influência”, e as regiões mais ricas em recursos naturais.

Desenganem-se aqueles que pensam que a intervenção militar ocidental em África rima com a presença militar francesa ou dos capacetes azuis da ONU.

Desde 2006, unidades especiais do Exercito americano levam a cabo uma guerra secreta que se intensifica e que faz da África a segunda zona de conflito da sua tropa de elite, depois do Médio Oriente.

O interesse americano em colocar militares em África manifestou-se abertamente no início dos anos 2000, por causa do interesse da China, e de muitos outros actores internacionais, por o continente ser ainda, em todos os seus aspectos, a região mais intacta do Mundo.

Segundo o jornal francês “Échos”, actualmente, as tropas de elite americanas em África agem discretamente nas suas bases situadas no Burkina Faso , no Mali, na Mauritânia,  na Líbia, na Bacia do Tchad, na  RCA, Somália e Djibuti.

Quanto à presença russa, o jornalista Christophe Boisbouvier escreve o seguinte no “Jeune Afrique de 20 de Outubro de 2017”: “A Rússia acaba de assinar acordos de cooperação militar com a Republica Democrática do Congo (RDC) e a RCA”.

Neste último país, segundo Mikhaïl Bogdanov, a Rússia tem pelo menos 180 conselheiros e instrutores militares. Sublinha que, pela primeira vez desde o fim da guerra fria, Moscovo implantou-se militarmente em pleno “território da França”, e apenas dois anos depois da operação Sangaris, levada a cabo pelas Forças Armadas Francesas, sem contar com os seus parceiros tradicionais como Angola, Moçambique e etc.

Em suma, depois de muito tempo ausente da África, a Rússia está assentar arraiais no meio das grandes potências presentes no continente.

Quanto a China, ela está cada vez mais implicada nas questões militares africanas. Aliás, esta foi a ideia dominante do primeiro fórum “Paz e Segurança, China-África, que teve lugar até 20 de Julho último, em Pequim, uma iniciativa do Presidente Xi Jinping.

Dados apresentados pela “TV5 Monde” à 15 de Julho último, desde que Xi Jinping acedeu ao poder, em 2013, as vendas de armas chinesas em África aumentaram em 55%. Vinte e dois países africanos compram tal armamento, acompanhado de uma formação militar.

Um terço do armamento importado em África vem da China e, segundo o “Stockholm international Peace Research Institute”, a China reivindica uma parte do mercado de 17%, ultrapassando os Estados Unidos, que apenas controla 11% da parte do mercado.
 

O canal televisivo francês revelou ainda que o orçamento militar chinês, que oscila entre os 110 mil milhões de Euros, vai aumentar em 7,5 %, em 2019.

É mais que o nível do crescimento económico chinês esperado por Pequim, no mesmo período. Em Djibouti, país onde ela instalou uma base militar há dois anos, a China investiu mais de 12 mil milhões de Euros, nos últimos 10 anos.

Foi a 01 de Agosto de 2017,  que a China inaugurou a sua primeira base militar em Djibouti. Ela está localizada próximo de um porto internacional, que se quer competitivo como o de Dubaï.

Estão lá desdobrados permanentemente 250 soldados, mas  as projecções indicam que em 2026 estarão lá estacionados 10 mil homens.

Pequim tem ainda três mil homens no contingente da ONU, e é o décimo primeiro contribuinte no seio do estado-maior daquela organização inter-governamental mundial.

Do contingente constam soldados,  engenheiros,  médicos militares, pilotos de helicóptero, efectivos de forças especiais, etc.

A cobiça das matérias-primas africanas

Por causa dos seus recursos naturais, a África interessa a todas as grandes potências mundiais.

O esgotamento dos recursos naturais no mundo faz de África uma reserva de matérias-primas de primeiro plano mundial.

Em pleno século XXI, o continente berço ainda representa 8% das reservas mundiais de petróleo, 7 % de ouro,  53 % de diamantes,  75 % de platina e, pelo menos, 60 % de terras aráveis não cultivadas, o que incita a cobiça dos extra continente.

Numa análise publicada pelo “Project Syndicate”, a economista zambiana Dambisa Moyo deduziu que se tais terras fossem exploradas, poderiam alimentar uma grande parte da população mundial, que no fim deste século vai atingir 11 mil milhões de pessoas.

 Fruto dessa cobiça, o Jornal belga “Les Échos des Afriques” constata que os parceiros tradicionais europeus que têm laços seculares com a África, estão a assistir à uma corrida desenfreada para o continente que parece substitui-los, ao ponto de, caso não se cuidem, correrem o risco de, a médio prazo, serem escorraçados pelos novos parceiros.

Para Fofana Moussa, no seu artigo intitulado “África, vítima de uma conspiração das grandes potências económicas” publicado em Dezembro de 2018, alerta que o conflito de interesses entre a China e os EUA, levou Pequim a pensar numa  “China–África”, enquanto a África ainda não rompeu os seus  laços umbilicais coloniais com a França.

Adverte que afastar a França de África, para fingir uma “França-África”, será uma luta titânica na esfera económica, cultural e política.

Por isso, não descarta uma futura guerra económica e de recursos naturais sem quartel, entre as grandes potências, na qual a África seria a primeira vítima do confronto.

Posto isto, é de desconfiar que a nova corrida armamentista anunciada a 02 de Agosto último não seja um bom augúrio para o continente-mãe.